terça-feira, 18 de agosto de 2009

Bipartido

Uma parte quer ficar
A outra teima em esperar
A parte que espera, tolera
E a que parte, pondera
Um lado fica pra trás
E o lado oposto se desfaz
Enquanto um lado não ama
O outro arde em chama
Aquele lado está aliviado
E o outro, de medo, gelado
Uma parte domina o mundo
A outra se perde no fundo
Essa vai de coração aberto
E aquela se perde no deserto

Tem o que despreza a métrica
E outro que vive de proza
Enquanto um
Vive uma vida rancorosa
O outro da vida
Suspira e goza
Se um se perde no escuro
O farol do outro ilumina seu muro
Um que se vinga pensando em justiça
Outro que apenas a paz cobiça
Cabeça que faz ameaça
E outra que vive na raça
Gente que espera os dias
E gente que a vida passa

(Aline Nunes)

Considerações sobre o tempo


Sempre soubemos que colocar o lixo pra fora diariamente faz bem, mas é com o tempo que vamos aprendendo que ele não nos faz falta quando temos tantas coisas de valor para não querer perder.
Sempre soubemos que não se vive sem amigos, mas é o tempo que nos ensina que apenas as amizades que fazem trocas positivas conosco são válidas. O tempo é sábio: leva embora tudo que vem apenas subtrair.
Sempre queremos o amor. Mas, novamente, é o tempo que nos mostra que só vale o amor independente, aquele que quando precisa ir embora, deixa saudade, e não um buraco porque falta algo em nossa vida. 
  
Sempre falamos do amor próprio. Mas nada melhor que o tempo para nos mostrar a diferença entre ele e a estranha necessidade de afirmação do "Eu sou".
 
Sempre buscamos nossa independência. Entretanto, ela não chega para quem está parado, acomodado, esperando justamente que venha o tempo e faça por nós. Primeiro, precisamos lutar para ser independentes de nós mesmos; independentes de nossos vícios, de nossos hábitos, de nossas fantasias.
Ambíguo? Não. O tempo mostra e ensina, mas a realização está nas mãos de quem decide realizar!

A tiara branca

Para inaugurar o blog, posto um texto meu, de 2005, mas que sempre faz um pouco de sentido na minha vida, embora poucos vão entender a “historinha” narrada.
Beijos e espero que gostem de ler essa doida chamada Aline Nunes, que adora botar a boca no mundo! ;)

A TIARA BRANCA
Há quanto tempo eu não passava uma tarde dessa… No início confesso que estava bem desanimada a sair de casa… Mas valeu a pena, e como valeu!
Subitamente, no meio daquela situação, comecei a pensar coisas, coisas que talvez já não habitassem mais o universo de minhas lembranças há alguns anos…
Eu me sentia viva, pulsante, irracional como devemos ser nessas horas.
Lembrei-me da minha (não distante) adolescência… Da minha tiara branca… Das mãos trêmulas e respiração ofegante… Das faces ruborizadas… Das Serenatas de Amor…
E da mesma forma, pairava sobre mim aquela idéia ai-meu-deus-o-que-é-que-eu-faço?
Olhava para minhas mãos e tinha a real sensação de estar segurando minha tiara branca, como fiz mais de 12 anos atrás.
Talvez devesse ter as mãos mais trêmulas hoje por não pensar mais em futilidades daquele tempo… Por não esperar mais ter a agenda mais desenhada, a almofada mais fofinha…
Talvez porque agora os tempos sejam outros… Talvez porque eu almeje coisas concretas… Pessoas concretas… Sentimentos concretos…
Eu precisava disso para me sentir mais mulher, mais inteira, para justificar o fato de passar meu batom todos os dias antes de enfrentar o mundo.
E, ao findar aquela tarde, desci a mesma rua que tantas vezes desço vagando…
Dessa vez, caminhei firmemente pelas ruas que têm um pouco de mim… Pelas ruas que trago sempre eu meu coração. Como se tivesse usando pela primeira vez minha tiara branca.